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comentários de Isabella Baroz sobre O Novo Espetáculo

"No breu, de olhos bem abertos, rostos mascarados e música macabra é que somos recebidos na porta da sala do USINA, onde ocorreu a primeira temporada de O Novo Espetáculo- Tudo Está à Venda do Grupo Tripé que é formado por quatro jovens atores brasilienses – Ana Quintas, João Pedreira, Gustavo Haeser e Davi Maia -  e está em seu segundo espetáculo.

Em parceria com o ator e diretor Similião Aurélio, o Tripé mostrou à que veio com a camaradagem dos amigos para a realização do projeto – fizeram uma página muito bem humorada com diversas coisas à venda – com a cara e com a coragem: levantou este espetáculo sem o auxílio dos programas de apoio à cultura do Distrito Federal que está em decadência absurda. O momento atual que vivemos é o vale de ossos secos para a arte. No entanto, existem corações pulsantes, mentes inquietas, artistas inconformados que querem bradar o grito de liberdade. Em meio às cinzas da angústia artística, brotou uma flor radiante que espalhou suas sementes através do vento e disseminou a esperança, a resistência, o querer, a fome, a sede, a necessidade de bradarmos juntos em defesa do que somos, do que queremos.

Em cena, não havia personagens. Eram os quatro atores sendo eles mesmos, falando e fazendo o que mais os instigam, se divertindo, provando, afetando uns aos outros, ao público. É claramente notável a paixão fervente que há em cada um deles em cena ou fora. Na verdade, não sei definir o que é fora ou dentro; creio que tudo é cena.

O bom humor permeou todo o espetáculo que há como carro chefe um apelo político pulsante. A forma com a qual a ditadura é abordada e atualizada é eletrizante. Traz a força de luta para os jovens reclamões da era digital; cheios de opiniões e ações congeladas. Há uma proposta de atacarmos ao ditador Haeser II com as bolinhas que usou para tentar derrotar o jovem herói Maia. Todos estávamos ao lado do herói e chuva de bolinhas voaram em direção ao palanque do ditador. Essa é uma forma simbólica e ao mesmo tempo concreta de ação: é preciso agir, algo tem que ser feito! Eles fizeram O Novo Espetáculo e nos carregou a fazermos também.

Sem cadeiras, sem muitas regras, sem divisão palco-platéia, O Novo Espetáculo é um acontecimento repleto de surpresas e subversões – incluindo o pagamento do ingresso, que é feito ao final do espetáculo. Quebras inesperadas e transições com brincadeiras adotadas, tudo acontece em uma enxurrada de dinâmicas construídas pelos atores e perpetuada pelo público. Só se define público pelo fato de não termos ensaiado com eles o roteiro, nem termos falas decoradas, mas as brincadeiras – dança da cadeira, vivo-morto, seu mestre mandou, pular corda, etc. – ainda temos de cor.

O cenário é composto por dois andaimes, bolas coloridas que surgem durante o espetáculo, bolas de ping-pong que são derrubadas do alto e claro, o publico também faz parte da composição do cenário. Muitos objetos são reaproveitados.

Com a proposta das brincadeiras, o grupo desperta o lado mais vivaz do ser humano: a criança. É escancarada a diferença entre quando o publico entra no teatro ainda sem saber direito o que está acontecendo, à procura das convencionais cadeiras ou arquibancadas, não sabe se fica no centro do espaço e logo correm para as extremidades para não se expor. De repente os atores assumem que é tudo uma grande farra e leva, gradativamente, um por um para esse universo, de maneira generosa, acariciando, despertando as crianças dorminhocas de dentro de cada um. Ao final, os adultos que já não estão mais, são dominados por suas crianças e estão jogando bola uns nos outros, brincando de estátua, participando. O brilho é tão gritante que chega a emocionar. Não estão mais preocupados com protocolos e convenções. O grande botão do foda-se é apertado com toda vivacidade da vida e a experiência é gerada.

Procurar intelectualizar a experiência vivida naquela sala é uma perda de tempo. Deixo aqui algumas pontinhas dos icebergs da vivência como provocação para irem à esse encontro, se conhecer, bradar o grito da liberdade junto com o Grupo Tripé e unir-se ao “Partido Independente de Todos Unidos”. “ – Você se sente injustiçado, Gustavo?” “ – Não, eu me sinto pessoa solta!”"

Isabella Baroz sobre O NOVO ESPETÁCULO (Tudo Está à Venda)

Brasília, DF
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